sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Sistematização da Produção Textual


A prática da produção textual é essencial para o aprimoramento da escrita que compreende forma e conteúdo. No entanto, o que parece óbvio a princípio, e até consta como uma prática recorrente nas classes escolares brasileiras, não tem proporcionado os resultados esperados por nós professores. Para confirmarmos isso, basta verificarmos as avaliações periódicas que aplicamos na escola.
Tanto em situações avaliativas cotidianas, quanto em situações pontuais de avaliação, onde se privilegia exclusamente a escritura, observa-se a presença dos mesmos problemas textuais.
Considerando tal situação, resta-nos refletir sobre a ineficácia de nossas intervenções pedagógicas no encaminhamento das questões que envolvem a prática textual. Onde estamos errando na sistematização da produção escrita em sala de aula? Existe, de fato, uma sistematização da prática textual, um momento para reflexão sobre o que se escreve e o que se lê? O tempo destinado ao mapeamento da leitura e escrita de nossos alunos atende às nossas necessidades, enquanto responsáveis pelo andamento do processo educativo? Estamos “lendo” corretamente as marcas textuais e o que elas nos dizem a respeito das hipóteses de nossos alunos sobre ler e escrever?
Apesar de nossas classes estarem superlotadas e desse fato dificultar em muito o exercício da escritura, é certo que ainda assim, proporcionamos momentos de escritura dentro da escola. Momentos descontextualizados, descontinuados, mas ainda assim, imprescindíveis a nossa avaliação, pois acreditamos que se não tivermos ao menos um contato com a escritura de nossos estudantes, não os conheceremos bem.
Nesse sentido, devemos pensar a sistematização da produção textual, buscando com isso, a otimização do tempo e do material que nos chega a mãos.
Sistematizar a produção de texto diz respeito a dar continuidade temporal ao processo de escritura, sobretudo a escritura coletiva encaminhada pelo professor. Essa temporalidade deve adequar-se às necessidades da turma.
Na modalidade de produção coletiva, o professor encaminha a escritura ou a reescritura do texto com os alunos, registrando na lousa as idéias e intervenções de seus educandos.
Se planejada previamente, essa prática proporciona ganhos valiosos. Note-se, por exemplo, a oportunidade de reflexão sobre as diferenças entre registro oral e registro escrito, a socialização de algumas regras de pontuação, de estruturação do parágrafo e o uso de conectivos relacionados ao processo anafórico e catafórico, em substituição aos “aí”, “daí” e “tipo assim”.
Entretanto, é imprescindível o planejamento prévio desta aula e a delimitação das questões a serem abordadas. Esse roteiro prévio auxilia no processo de deciframento do universo textual, geralmente, complexo e abrangente. Durante o planejamento, o professor pode antever as intervenções de seus alunos, as perguntas ou sugestões e antecipar a melhor forma de abordar o conteúdo. Ressalte-se que a prática textual coletiva não visa aqui à enumeração de regras gramaticais, simplesmente. Ela diz respeito, sobretudo, à reflexão em torno do “erro” e a busca por alternativas de reescritura. Nessa perspectiva, a escritura revela hipóteses a respeito da aquisição da língua materna.
Seguindo os passos de Emília Ferreiro, que identificou as hipóteses sobre leitura e escrita nas séries iniciais de letramento, devemos olhar para o texto em busca das hipóteses de nossos alunos sobre o que é ler e escrever e sobre o uso da tal da gramática normativa.
Vejamos algumas hipóteses que ainda se arrastam em classes de 6º ano:
- Escreve-se como se lê; (oralidade x escrita)
- É preciso deixar um espaço, que pode ser o “saltar uma linha”, separando pedaços do texto; (paragrafação)
- Expressões que se ligam no momento da fala continuam ligadas na escrita; (segmentação das palavras dentro da estrutura frasal)
- A pausa na leitura é registrada por alguma marca; (pontuação x enunciação oral)
Ao observarmos as hipóteses de nossos alunos, poderemos intervir de maneira mais inteligente na desconstrução de equívocos conceituais acumulados ao longo de sua formação. Nossas pesquisas nos auxiliarão permanentemente, visto que muitas hipóteses evidenciadas por nossos alunos hoje, perduram em outras gerações.
Tenho utilizado em muitos encontros, “a metáfora do cadáver”, relacionando o corpo sem vida ao texto não lido. Mas, mesmo sem vida, se bem observado, o cadáver pode falar de seu óbito por meio de sinais e marcas. Essa fala, na necropsia, nasce por meio do olhar minucioso do perito criminal para o corpo sem vida. Observando-o em seus mínimos detalhes, o profissional busca, investiga, supõe, imagina, cria e recria, não só o fato em si, mas o contexto que o circunda.
Assim como o perito vivifica o corpo, significando os sinais que vê, o professor deve enxergar o texto para além da linha escrita. Nessa ação de fazer o texto falar, o professor entrará em um processo reflexivo que se prolongará beneficamente e contribuirá para o seu aprimoramento enquanto revisor textual. E revisar textos não se restringe a “sangrar” a folha em branco, assinalando erros ortográficos ou pontuação, aparentemente, inadequada. Todo revisor acumula o papel de tradutor, co-escritor, leitor ideal, mediador temático e escriba. E não há como ser diferente; se estamos diante do texto de alguém, com a responsabilidade de melhorá-lo, é impossível não exercermos esses papéis simultaneamente.
Consciente disso, o professor deve estabelecer o “seu” processo de revisão, já que não se trata aqui de aplicar a receita de alguém. Aliás, na panela da revisão textual é dever do revisor buscar os ingredientes que lhe apetecem o paladar.
No entanto, é imprescindível assinalar alguns cuidados na organização desse trabalho. A sugestão proposta aqui é uma possibilidade que deve ser enriquecida, considerando a diversidade de lugares, de falares, de turmas, enfim, as diferentes vidas por trás da palavra escrita.
A revisão textual começa no momento da escrita. Quanto mais significativo for o nascedouro do texto, melhor ele será escrito. É possível, por exemplo, resolver problemas de coerência textual, trabalhando previamente o tema a ser abordado, bem como as ideias a ele relacionadas.
A estratégia de revisão proposta aqui ressalta aspectos relacionados à forma e conteúdo, indissociáveis do campo semântico presente no todo textual.
Alguns pontos a observar:
1- É importante estabelecer com os alunos um contrato pedagógico que resguarde o autor e possibilite a utilização de seu texto;
2- O texto selecionado deve conter, de maneira geral, as dificuldades apresentadas pela turma;
3- Pode-se reestruturar todo o texto ou partes significativas dele;
4- Antes da revisão propriamente dita, o professor observará as hipóteses explicitadas por seus alunos sobre escrita, analisando as marcas textuais;
5- Listados os problemas textuais, deve-se delimitar aqueles que serão efetivamente tratados na revisão coletiva. A sugestão é trabalhar em torno de 04 dificuldades;
6- Os problemas que não forem abordados durante a reescritura, devem ser corrigidos na matriz antes da revisão coletiva;
7- O professor deve estudar o conteúdo subjacente ao problema abordado;
8- Cópias do texto escolhido devem ser distribuídas entre os alunos para que eles possam analisá-lo antes da revisão com o professor;
9- Para que os alunos possam acompanhar a revisão, o texto escolhido pode ser reproduzido integralmente no quadro, em transparência ou em PowerPoint;
10- Seguindo linha por linha, num processo de retomada e progressão, o professor conduz a análise do texto, solicitando sugestões para os problemas apresentados. Caso algo passe despercebido, o professor deve apontar o problema, mediando a transposição da norma não padronizada para a socialmente aceita.
11- Os alunos devem fazer a reescritura em seus cadernos junto com o professor;
12- As inadequações serão marcadas com um traço, para que o autor observe pelo confronto, possibilidades diferentes de escritura e acompanhe o seu crescimento textual;
13- A partir da sistematização da revisão coletiva de texto o professor pode começar a construir, junto com seus alunos, uma tabela para revisão individual, associando os problemas textuais a símbolos acordados com o grupo;
Os textos escolhidos para revisão devem servir apenas a uma aula de revisão, resguardando com isso a alternância de autores e textos.
Os textos corrigidos seguem para o portfólio do aluno, que terá o compromisso de reescrevê-lo. Assim, teremos um portfólio composto de um texto original, com as marcas da correção feita pelo do professor, e ao lado o texto revisado pelo aluno.
O trabalho de escritura e reescritura coletiva deve ser uma constante, se possível, realizado semanalmente para que alcance a eficácia desejada.

Por Adelaide de Paula Santos




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